“Tempestade perfeita”: livro detalha como o bolsonarismo

“Todo líder populista reza para que exista um inimigo externo, que seja capaz de unir a nação em torno dele. Bolsonaro teve o ‘melhor’ inimigo que a história poderia providenciar, mas foi tão estúpido que conseguiu se aliar ao vírus, contra a população brasileira.”

A afirmação é do jornalista Cesar Calejon, autor do livro Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil, que será lançado na próxima sexta-feira (15) pela Editora Contracorrente.

Calejon tem especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e é mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP).

O livro é uma análise detalhada de como o bolsonarismo e a instabilidade política agravaram as consequências da covid-19 no país. Na última semana, o Brasil atingiu a marca de 600 mil mortes em decorrência do novo coronavírus.

Mais do que uma crise sanitária, criou-se um colapso social, em um contexto de recessão econômica, com as instituições sob ataque e um governo incapaz de dar respostas às necessidades da população.

“Quando existe uma liderança sólida, sobretudo utilizando o simbolismo presidencial de forma adequada no combate ao patógeno, os resultados são absolutamente mais favoráveis”, ressalta o autor, em entrevista ao Brasil de Fato.

“Não quer dizer que não existiria a pandemia, não quer dizer que pessoas não seriam contaminadas e morreriam, em alguma medida. Mas isso mostra que a atuação do bolsonarismo catalisou muitas vezes o estrago que a covid-19 causou no Brasil.”

Durante a produção da obra, Calejon realizou dezenas de entrevistas com pesquisadores de diferentes áreas, incluindo profissionais de saúde, entre março de 2020 e junho de 2021.

O lançamento de Tempestade Perfeita ocorrerá às 18h de sexta, na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, em São Paulo (SP).

Confira os melhores momentos da entrevista:

Brasil de Fato: O que significa o termo “sindemia”, e por que você considera essa definição adequada para definir o momento que o Brasil enfrenta?

Cesar Calejon: O conceito de sindemia não é meu, mas de um pesquisador estadunidense [o antropólogo médico Merrill Singer]. Ele dá conta de diferentes e múltiplas crises que se somam para criar uma única grande calamidade.

No Brasil, essa crise começa com os movimentos de 2013, passa pelo conluio midiático que se formou em torno da Lava Jato, pela subversão do jogo democrático que levou à destituição da presidenta Dilma sem crime de responsabilidade em 2016, e pelo impedimento da candidatura de Lula em 2018.

Com a interseção entre o bolsonarismo e a covid-19, que é o que meu trabalho se propõe a analisar, formou-se a “tempestade perfeita”: a gente passa a ter não só uma crise sanitária, mas uma crise social, política, econômica. Ou seja, diferentes crises interagindo simultaneamente, que caracterizam esse processo sindêmico.

É uma situação calamitosa, que engloba todas as áreas. Não é questão de achismo ou de “ser de esquerda”. É só pegar o preço do gás de cozinha, da gasolina, da taxa de conversão do dólar, o Índice de Gini [que mede a desigualdade], o Índice de Desenvolvimento Humano, etc.

Qualquer parâmetro ou indexador que faça o acompanhamento da vida pública brasileira vai mostrar uma crise muito aguda – que tem todas as dimensões que mencionei, além de ser uma crise ética, como mostram os relatos escabrosos sobre a Prevent Senior na CPI da Covid.

Houve países em que a pandemia não deu origem a uma catástrofe social, por conta de ações tomadas pelo Estado?

Todos os países governados por líderes com viés autocrático – Orban [primeiro-ministro da Turquia], Trump [ex-presidente dos EUA], Duda [presidente da Polônia] – tiveram desempenho infinitamente pior no combate à pandemia.

Como exemplo positivo, eu citaria a Nova Zelândia, liderada pela [primeira-ministra] Jacinda Ardern, que foi muito forte e coerente no enfrentamento à pandemia. Ao menor sinal de contágio comunitário, ela fechou o país, avançou de forma muito séria e não estimulou remédios ineficazes: o oposto do que fez Jair Bolsonaro.

Na Alemanha, a [primeira-ministra] Merkel também fez um bom trabalho.

Quando existe uma liderança sólida, sobretudo utilizando o simbolismo presidencial de forma adequada no combate ao patógeno, os resultados são absolutamente mais favoráveis.

Não quer dizer que não existiria a pandemia, não quer dizer que pessoas não seriam contaminadas e morreriam, em alguma medida. Mas, isso mostra que a atuação do bolsonarismo catalisou muitas vezes o estrago que a covid-19 causou no Brasil.

A extrema direita, em cada país, lidou de diferentes formas com a pandemia. Na Índia, por exemplo, o primeiro-ministro Narendra Modi reagiu de forma agressiva, com quarentenas rígidas e violência policial contra quem descumprisse os protocolos. Na Europa e nos EUA, movimentos antivacina continuam nas ruas. Enquanto isso, no Brasil, os bolsonaristas criticam desde o início as medidas de isolamento social, mas quase todos tomaram vacina. A que você atribui essas diferentes reações dos movimentos ultraconservadores pelo mundo diante do coronavírus?

Essa é uma ótima reflexão. Cada país tem suas idiossincrasias, suas peculiaridades locais, e isso influencia a maneira como esses eventos se manifestam no contexto doméstico de cada país.

No meu primeiro trabalho, A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI [Kotter Editorial], eu uso cinco vetores para explicar por que um movimento tão extremista foi capaz de ascender à chefia do nosso Poder Executivo.

O primeiro vetor é o antipetismo. O segundo, é o que chamo de elitismo histórico-cultural. O terceiro aspecto é o dogma religioso. Quarto: a negação da política anti-institucional, do “sistema”. E, por fim, as estratégias de disseminação de mentiras e ódio nas redes.


Presidente Jair Bolsonaro promove hidroxicloroquina como remédio contra a covid-19, durante posse de Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde -16/09/2020 / Carolina Antunes/Presidência da República

Para responder a sua pergunta, eu chamaria atenção especialmente para o elitismo histórico-cultural e como ele se organiza no país no começo do século XXI. Ele traz todo o legado do Brasil Colônia e do Brasil Império, com dimensões de mandonismo, de patrimonialismo, de racismo estrutural, que reverberam na forma como nosso arranjo social está composto.

O dogma religioso também é um fator importante para essa reflexão. Não trabalho contra nenhuma religião, mas contra o dogma religioso no cerne da vida política do país. Isso é um problema. Qualquer nação que se organiza de forma teocrática, invariavelmente, se torna intolerante.

Bolsonaro se apoiou na proposta neoevangélica no Brasil. É uma abordagem muito dogmática, centralizada em um tipo de fé que não remete a qualquer raciocínio, e que tem aderência forte no próprio elitismo histórico-cultural.

Essas são as duas propriedades mais peculiares dessa proposta autoritária no Brasil. E elas não se encerram em si mesmas, mas são meios para se avançar em questões relacionadas à economia política.

No fim do dia, sempre vai ter um sujeito como Paulo Guedes. E, se as pessoas não entendem como funciona a economia política, fica muito difícil construir um pensamento crítico. O mesmo vale para o direito constitucional: se as pessoas não entendem como funciona a República, a arquitetura institucional, fica impossível avançar.

Conforme a CPI da Covid levantou indícios de propina na compra de vacinas, parlamentares de oposição utilizaram várias vezes a frase “não era negacionismo, era corrupção”. Você concorda com essa afirmação? O que mais justificaria a postura negacionista de Bolsonaro sobre máscaras, vacinas e distanciamento social?

O bolsonarismo é a expressão mais aguda de um modelo de sociabilidade que tem a competição desenfreada como principal organizador da vida social. Ou seja, a expressão mais agressiva dos intentos neoliberais na periferia do capitalismo global.

Essa proposta ascendeu com base no ódio, na discriminação, a tal ponto que casos de corrupção na compra de vacinas em meio à maior pandemia do século são normalizados entre os bolsonaristas.

Ele pratica uma necropolítica, que tem como alvo principal todos os grupos historicamente usurpados pela colonização europeia nas Américas.

Não há nenhuma restrição ética, nenhum parâmetro moral. Essa gente não respeita a ciência, se baseia em parâmetros pseudocristãos. Eles têm como base uma fé descabida e utilizam o que quer que seja para manter seus poderes.

Então, sem dúvida, existe um elemento de negação da ciência, temperado pela corrupção. Porque não é única e exclusivamente negacionismo: essas pessoas sabiam o que estavam fazendo e negligenciaram deliberadamente a vacinação.

Bolsonaro defende há décadas políticas como controle populacional, integrou a “bancada da bala” e tem relação histórica com as milícias no Rio de Janeiro. Na sua visão, a pandemia contribuiu para acelerar seus objetivos, ao exterminar milhares de trabalhadores? Ou, pelo contrário, a crise sanitária expôs o fracasso do desmonte do Estado promovido pelo atual governo?

Eu trago essa reflexão no posfácio de Tempestade perfeita. Bolsonaro ascende com uma proposta absolutamente baseada na necropolítica.

Em 2010, ele foi eleito deputado federal com cerca de 500 mil votos nos bairros com forte presença da milícia no Rio de Janeiro. Em 2014, chegou a 1,5 milhão de votos. Existem gravações de Bolsonaro dizendo “minha especialidade é matar”. Então, não é preciso ser um gênio da ciência política ou da semiótica para entender que ele pratica uma necropolítica, que tem como alvo principal todos os grupos historicamente usurpados pela colonização europeia nas Américas.

A pandemia expõe tudo isso. Em interseção com o bolsonarismo, ela evidenciou um modelo de funcionamento da sociedade que já era agressivo antes, mas com certo nível de hipocrisia.

Quem antes era um meritocrata convicto e aderiu ao bolsonarismo, ou vai defendê-lo até o fim, ou vai negar que apoiou Bolsonaro.

Você com certeza tem amigos ou parentes que eram racistas, homofóbicos, mas até a ascensão do bolsonarismo se escondiam atrás da proposta do que antes chamávamos de social-democracia – que era o PSDB. Hoje, as pessoas se referem a esse partido não mais como social-democracia, mas como direita liberal.

Aquele tio que era racista, que fazia piadinhas na hora do almoço sobre gays, que dizia que a mulher não sabia dirigir, votava historicamente no PSDB, mas em 2018 precisou “botar a cara”. Ele votou no Bolsonaro, e hoje não pode mais se esconder atrás da hipocrisia tucana, ou apenas da meritocracia.

Vale lembrar que, de modo geral, quem assume essa postura é branco, heterossexual e tem ascendência europeia.

Então, quem antes era um meritocrata convicto e aderiu ao bolsonarismo, ou vai defendê-lo até o fim, ou vai negar que apoiou Bolsonaro. E é sempre importante lembrar que MBL [Movimento Brasil Livre], PSDB, Lava Jato, são todos artífices do bolsonarismo – assim como todos que apoiaram o golpe parlamentar de 2016.

Essas pessoas, obviamente, não queriam Jair Bolsonaro na presidência. Elas preferiam alguém como Geraldo Alckmin, Sergio Moro, Luciano Huck. O problema é que, quando se estimula ódio e elitismo histórico-cultural, você sabe como começa, mas não sabe como termina.

A pandemia, além de evidenciar tudo isso, ofereceu a medida perfeita para que Bolsonaro se consolidasse como líder genuíno, para seus apoiadores, capaz de “unificar” a nação. Mas ele é uma figura tão unilateral e tão pouco resiliente que se mostrou incapaz de dançar conforme a música.

Quando surgiu a pandemia, em março de 2020, ele tinha a faca e o queijo na mão. Ele poderia ter vindo a público e dito:

“Caros brasileiros, sei que temos divergências, mas existe um patógeno letal, que constitui a maior pandemia do século, e não podemos nos dar ao luxo de nos atermos a nossas dissonâncias. A gente precisa se unir pela solidariedade, pela ciência, para combater um inimigo externo.”

Todo líder populista reza para que exista um inimigo externo, que seja capaz de unir a nação em torno dele. Bolsonaro teve o “melhor” inimigo que a história poderia providenciar, mas foi tão estúpido que conseguiu se aliar ao vírus, contra a população brasileira. Se tivesse sido mais hábil, poderia garantir um projeto de poder para mais 20, 30 anos.

Dialeticamente, a pandemia ofereceu essa possibilidade, e ao mesmo tempo evidenciou a tragédia do modelo neoliberal, em sua expressão mais agressiva.

Para além do eleitor que vota há décadas na esquerda e dos bolsonaristas convictos, em que medida o fracasso desse modelo já foi internalizado pela população?

Há um mês, escrevi um artigo em minha coluna no UOL que a suposta “equivalência” entre Lula e Bolsonaro, como se os dois fossem extremos, é o novo antipetismo.

É verdade que Lula representa a antítese do bolsonarismo, mas não é verdade que ambos sejam tão deletérios para a vida sociopolítica do país, como a “terceira via” quer caracterizar. E isso não depende de achismos. Temos uma série de indicadores e parâmetros que nos mostram que as duas propostas não se equivalem.

O bolsonarismo está na contramão do processo civilizatório e emancipatório que vivemos.

Pela primeira vez, nesta década, negros e pardos são maioria entre os que ascendem ao ensino superior. Há uma maior quantidade de mulheres e gays ocupando cargos parlamentares. Tudo que o bolsonarismo preconiza vai em sentido contrário à ascensão das forças contra-hegemônicas. Falo sobre isso no penúltimo capítulo do livro.

O contexto histórico-cultural que dá origem ao bolsonarismo vem sendo consolidado no Ocidente ao longo dos últimos 350, 400 anos, e não é possível mudar isso em uma década. É um processo muito mais profundo. No começo do século XXII, propostas semelhantes ao bolsonarismo possivelmente serão inviáveis, porque o subconsciente coletivo estará orquestrado de maneira distinta.

Está na natureza do dogma religioso não aceitar a reflexão, não discordar, não debater. Sobretudo o neopentecostalismo, como está organizado no Brasil, se baseia na lógica do “funciona assim”, “você tem que aceitar”. E, no fim do dia, homens, brancos e heterossexuais é que mandam – o resto obedece.

Por isso, é tão importante fomentar o pensamento crítico, estudar economia política, arquitetura institucional. É por isso que o marxismo assusta tanto. Já imaginou ensinar na escola como se reproduz o capital enquanto determinante de relações sociais, dentre as quais a exploração da classe trabalhadora?

A classe empresarial, sobretudo a que vive da dimensão financeira do capitalismo, não tolera isso. Manter parte da população ignorante, para eles, é uma questão de sobrevivência. Eles não produzem nada, e por isso vão continuar apoiando os impropérios do bolsonarismo.

Para quem você escreveu Tempestade Perfeita?

Escrevi o livro para qualquer pessoa que esteja disposta a avaliar a interseção entre bolsonarismo e covid-19 sob um prisma científico, com um viés acadêmico e jornalístico.

Todo meu esforço enquanto comunicador, escritor, jornalista, é fomentar o pensamento crítico. E isso não significa “votar no Lula”. Não me refiro a nenhuma orientação político-partidária, mas a três dimensões.

A primeira é a capacidade de questionar, não aceitar as propostas de forma passiva. Em segundo lugar, questionar com base em parâmetros científicos, na materialidade dos fatos. Por último, ser capaz de, com base nisso, entender a dinâmica de funcionamento que organiza o seu arranjo social e qual a sua posição ou função dentro dele.

Para desenvolver esse pensamento crítico, como já ressaltei, considero a economia política e o direito constitucional como centrais. Isso precisa ser introduzido já no ensino médio, para adolescentes. Na minha visão, esses aspectos resumem todos os meus esforços como escritor e como jornalista ao longo de 20 anos.

Edição: Leandro Melito

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