O pouso forçado do Grupo HNA, gigante chinesa que

Em pleno Mar do Sul da China, infestado de navios de guerra estadunidenses e europeus que insistem em navegar próximos à costa chinesa, se encontra a ilha-província de Hainan. Mesmo com a crise do setor de turismo desencadeada pela pandemia, mais de 65 milhões de turistas visitaram suas praias e montanhas em 2020, localizadas na mesma latitude que a caribenha Jamaica. No feriado nacional de 1 a 7 de outubro — que comemora os 72 anos da fundação da República Popular da China — uma multidão de chineses aterrissou em seus dois aeroportos internacionais, na capital Hukou (norte) e em Sanya (sul). Desde 2020, devido à covid-19, fazem falta os incontáveis turistas russos. Há anos, eles são tantos que já influenciam o visual de grande parte da ilha: restaurantes, hotéis, praias e outras atrações turísticas costumam ter seus letreiros em chinês e em cirílico, o alfabeto russo.

A explosão turística vivida pela ilha de Hainan foi o principal combustível da ascensão de um dos maiores conglomerados privados da China nas últimas duas décadas, o Grupo HNA. Seu carro-chefe foi a bem sucedida companhia aérea Hainan Airlines, que em alguns anos se tornou a quarta maior do país (somente atrás das três estatais Air China, China Eastern e China Southern), com aviões novos e serviços razoáveis, trazendo turistas chineses e russos, ávidos por escapar do frio do norte. Querendo voar mais alto, a empresa logo expandiu seus negócios no setor de turismo, abocanhando o controle de aeroportos, hotéis e agências de viagens na província. De modo que era praticamente impossível vir a Hainan e não gastar dinheiro com as empresas do Grupo HNA.

Entre os milhões de turistas que disputam espaço nas areias claras e nos bares lotados da ilha chinesa, poucos devem saber que esse será o primeiro feriado nacional que o fundador do Grupo HNA, Chen Feng, e seu CEO, Tang Xiandong, passarão detidos pela polícia. Dias depois do anúncio da primeira fase da reestruturação do grupo, que sucumbiu em uma espetacular falência há alguns meses, a polícia prendeu dois dos mais importantes homens de negócios do país por “suspeita de crimes”, ainda não tornados públicos.

A formação de quadros para o socialismo de mercado

Chen Feng é um dos fundadores do Grupo HNA e sua principal figura pública. Filho de quadros médios do Partido Comunista na província de Shanxi, Chen tinha 13 anos quando eclodiu a Revolução Cultural em 1966. Teve de sair da escola e foi enviado para servir na Força Aérea do Exército de Libertação Popular. Alguns anos após o fim do movimento liderado por Mao Tsé Tung, e com experiência em aviação, foi trabalhar em agências estatais reguladoras do setor. Em 1984, ganhou uma bolsa do governo para estudar gerenciamento de transporte aéreo na escola da Lufthansa.

De volta a Hainan, conseguiu um emprego no escritório do Banco Mundial em 1990, de onde saiu para trabalhar diretamente para o governador de sua província de Hainan. A essa altura, Chen acumulava experiência e formação no setor de aviação — em nível estatal e privado — , e estava preparado para se tornar mais um empreendedor bem sucedido do socialismo de mercado chinês.

No começo dos anos 90, o governo chinês começou a reformar o setor aéreo, abrindo espaço para companhias privadas. A província de Hainan havia criado uma companhia aérea que não conseguia decolar. A convite do governo, ele e Wang Jian lideraram um grupo de ex-colegas da agência estatal e outro de investidores — entre eles, megainvestidor George Soros — que injetou dinheiro para fundar uma nova empresa privada, a Hainan Airlines. Fundada em 1993, a empresa não parou de crescer, expandiu-se para outros setores, formando em 2000 o Grupo HNA, nos setores de aviação, turismo, finanças, logística e imobiliário.

Durante toda a primeira década do século, e depois de um mestrado na Holanda e uma especialização em negócios em Harvard, Chen Feng não parou de receber prêmios e homenagens de associações estatais e privadas, reconhecido como um gênio empreendedor que se utilizava de técnicas modernas de gerenciamento, ao mesmo tempo em que aprofundava seu vínculo com importantes espaços de poder político do país. Foi membro do Comitê Permanente do Congresso Popular de Hainan, deputado no 16º e 17º Congresso do Comitê Central do PCCh e membro do comitê do principal órgão político consultivo da China, a Conferência Consultiva-Política do Povo Chinês.

Enquanto isso, desde 1991, seu irmão mais novo Chen Guoqing já havia fundado nos EUA uma empresa chamada Hainan American Co. (HAC), que posteriormente se tornaria um braço importante do Grupo HNA. Com Guoqing na presidência e Tang Xiandong de vice (o mesmo que também foi detido essa semana), a HAC articulava financiamentos com as sedes nova-iorquinas de bancos estatais chineses. Junto com sua esposa, Chen Guoquing, adquiriu inúmeros apartamentos de luxo em endereços badalados de Manhattan — inclusive na Trump Tower —, passando a frequentar os círculos de elite da “capital do mundo” através de associações empresariais e de filantropia. Entre outras posições de prestígio, Guoqing se tornou vice-presidente da Câmara Geral de Comércio da China nos EUA e membro do Conselho da prestigiosa Universidade Brown. Os Chens, como inúmeros chineses donos de empresas bem sucedidas globalmente nas últimas décadas, fincavam um pé na elite estadunidense.

O céu é o limite para um budista bilionário no mercado global

Em 2010, com suficientes prestígio político doméstico e cacife econômico, Chen Feng estabeleceu a meta de incluir o Grupo HNA na lista “Fortune 100”, o ranking das maiores corporações do mundo. Com a catástrofe financeira de 2008, os ativos ocidentais se desvalorizaram, ao mesmo tempo em que a liquidez no mercado chinês era alta. Estavam criadas as condições para que grandes corporações chinesas comprassem centenas de bilhões de dólares em ativos no Ocidente. Chen sempre cultivou uma imagem pública de homem de hábitos simples. Budista, ele não bebe, não fuma e não participa dos fartos banquetes de negócios chineses, que se tornaram comuns no país. Mas quando chegou a hora de ir às compras no mercado global de ações, Chen foi tudo, menos comedido. 

Com acesso fácil à empréstimos, o Grupo HNA deu início a uma onda de aquisições simplesmente avassaladora. Calcula-se que o grupo tenha gastado cerca de US$50 bilhões em compras de ativos entre 2010 e 2017. Em julho de 2017, seus ativos haviam mais que quadruplicado, chegando a US $147 bilhões, dos quais US$33 bilhões desde 2015. A lista deles é longa e impressiona. Para ficar apenas nos mais importantes:

  • Deutsche Bank (sócio majoritário com 9,9% das ações, R$ 20,2 bilhões)

  • Grupo Hilton (25%, R$ 35,6 bilhões)

  • a distribuidora de eletrônicos estadunidense Ingram Micro (R$ 32,8 bilhões)

  • a gigante de logística de aeroportos Swissport (R$ 15,3 bilhões)

  • as locadoras de aeronaves CIT Group (R$ 54,7 bilhões) e Avolon Holdings (R$ 8,2 bilhões)

  • quatro terrenos no antigo aeroporto de Hong Kong (R$ 19,1 bilhões)

  • a empresa de catering de aviões Categroup (R$ 8,2 bilhões)

  • a companhia aérea brasileira Azul (23,7% das ações, R$ 2,4 bilhões)

Além de participações em dezenas de outras empresas na China e no mundo, como TAP e Aigle Azur (aviação), Dufy (free shops) etc. Na aviação chinesa, o HNA controlava inúmeras companhias regionais, como a Hong Kong Airlines e chegou a ter 15% do mercado nacional.

A fórmula que a HNA usou para crescer é muito semelhante a da Evergrande, a gigante da construção que também está à beira do colapso. Tomava empréstimos vultuosos em bancos e captava dinheiro no mercado de ações para compra de ativos, aumentando seu portfólio com garantias para que pudessem fazer mais empréstimos, e assim sucessivamente. Entre o final de 2014 e 2016, o grupo captou R$ 110 bilhões no mercado de ações. No meio disso tudo, grandes fluxos de caixa provenientes de seus negócios bem sucedidos serviam como amparo às enormes operações financeiras. Como resultado, o HNA chegou ao final de 2017 com cerca de R$ 1 trilhão em ativos, e seu faturamento disparou para R$ 496 bilhões. No entanto, suas dívidas de R$ 625 bilhões também preocupavam. O HNA realizava o sonho de Chen, conquistando a 78ª posição no ranking Fortune 500. Mas a realidade logo começaria a cobrar seu preço.

Um choque de realidade nas finanças desvairadas e a falência do HNA

Muito atento a tamanho frenesi no mercado, em meados de 2017, o governo chinês anuncia novas regras, criticando o “excesso” de investimentos no exterior e proibindo os bancos de emprestar mais dinheiro aos grandes grupos como Anbang (estatizado em 2018, com seu ex-presidente preso por 18 anos por fraude e peculato), Fosun, Wanda e HNA, que foram obrigadas a começar a vender seus ativos internacionais. Em dezembro de 2017, medidas ainda mais rígidas cortaram toda e qualquer fonte de financiamento externo para o HNA. Em 2018, o grupo vendeu R$ 253 bilhões em ativos (como as ações do Hilton e Deutsche Bank) e, para piorar o quadro, seu co-fundador Wang Jian — segundo muitos o responsável pela maior parte das decisões nos bastidores — morreu em um trágico acidente na França, ao tentar subir em um muro para fotografar uma paisagem idílica do campo francês, caindo de uma altura de 10m.

Desde então, o HNA vinha encontrando imensa dificuldade para refinanciar sua dívida trilionária. Chegou até mesmo a vender produtos financeiros para 23 mil funcionários, prometendo altos retornos, mas não demorou muito a dar os primeiros calotes. Mais uma vez, um script muito semelhante ao da Evergrande, que se utilizou do mesmo recurso. Por conta de sua estrutura interna complexa — mais de 300 subsidiárias —  e participação acionária bem concentrada nas mãos dos irmãos Chen e dos irmãos Wang por meio de suas fundações de caridade (uma na China, outra nos EUA), sempre foi difícil saber exatamente o que se passava nas contas do HNA, como relatam muitos investidores. Se o grupo adentrou 2020 mergulhado em dívidas, a pandemia foi a gota d’água que faltava para que ele se afogasse. Mesmo operando 668 aviões comerciais em 1.500 rotas, com 64 mil funcionários (o HNA possui um total de 100 mil), sua principal companhia, a Hainan Airlines, reportou um prejuízo de R$ 54 bilhões, o recorde histórico entre todas as companhias chinesas listadas em bolsas. 

Desde fevereiro de 2020, a Hainan Airlines passou a ser controlada pela província de Hainan, mas foi só em janeiro desse ano que o HNA jogou a toalha e se submeteu ao processo de falência. Estima-se que o total de dívidas de suas 321 subsidiárias e mais de 60 mil credores corresponda a R$ 927 bilhões. Um grupo de trabalho organizado pelas autoridades governamentais e o próprio HNA vem trabalhando há meses para apresentar um plano de reestruturação de suas empresas. Ele é liderado por Gu Gang, secretário do Partido no HNA. O grupo será fatiado em quatro setores: companhia aérea, aeroportos, finanças e comércio. Na semana passada, foram anunciadas as soluções para os dois principais setores: aviação e aeroportos. Elas demonstram a flexibilidade dos mecanismos do governo e do mercado chineses para superar crises de imensos conglomerados endividados como o HNA.

Joia da coroa, a Hainan Airlines será assumida pelo Grupo Liaoning Fangda, um grande e pouco conhecido fabricante de aço, que já adquiriu outras empresas falidas e injetará R$ 34,6 bilhões na companhia aérea, sendo R$ 2,5 bilhões em doações para começar a pagar as dívidas dos produtos financeiros devidos a seus funcionários. De acordo com o site do grupo, seu faturamento e ativos ultrapassam os R$ 100 bilhões cada, atuando também em carvão, medicina e finanças. Apresentaram a melhor proposta e ficarão com cerca de 25% das ações da Hainan Airlines. Mesmo sendo um grupo privado, o Fangda aposta na chamada “construção do Partido”, com inúmeros espaços e atividades da empresa dedicados à missão, como podemos ver em seu site. Trata-se de um exemplo da estratégia de Xi de aumentar a presença do Partido no interior das empresas privadas, fortalecendo a capacidade de planejamento e coordenação das políticas governamentais. Pode assustar os liberais ocidentais, e até alguns chineses, mas faz muito sentido para o avanço do socialismo de mercado chinês.

Já a HNA Infrastructure — que controla 11 aeroportos (como os dois internacionais de Sanya, o Frankfurt-Hahn e outros regionais chineses), alguns free shops, e também atua no setor imobiliário —, terá 29% de suas ações compradas pela estatal do setor de infraestrutura Hainan Development Holdings, que passará a ser majoritária e deverá vender os ativos da HNA Infrastructure que não fazem parte de seu negócio principal. A estatal hainanense possui R$ 84,2 bilhões em ativos e é considerada uma empresa segura pelo governo, que aposta em conciliar mecanismos estatais e privados para superar a falência do Grupo HNA.

O dinheiro não pode tudo na China de Xi

A China passa por um momento de reformas profundas em diversos setores da economia e da sociedade. Há anos, o setor financeiro e suas relações nem sempre transparentes com grandes conglomerados privados têm sido alvo de novas regulamentações. Foi assim em 2017, quando o governo decidiu restringir o excesso de empréstimos com garantias frágeis e alguns de seus maiores conglomerados não conseguiram mais rolar suas dívidas. Algo semelhante aconteceu em 2020, com as restrições aos empréstimos sem limite às grandes e já endividadíssimas construtoras do país, o que desencadeou a atual crise da Evergrande. Foi assim também no caso do Grupo Ant, de Jack Ma, cuja gigante financeira emprestava bilhões dando apenas 2% de garantia, até sofrer intervenção do governo e ver parte de sua empresa estatizada.

O Presidente Xi Jinping tem deixado claro que práticas abusivas do sistema financeiro — que geram “crescimento inconsequente” baseados em alta alavancagem e desconectados da economia real, trazendo ricos reais a toda a sociedade — serão cada vez menos toleradas. Nos últimos anos, inúmeros bilionários chineses foram presos em casos de fraude, corrupção ativa e outros crimes, em um esforço hercúleo do governo de Xi para domar os excessos e distorções do poder do dinheiro sobre a política.

Todos os atuais acionistas do HNA perderão suas participações no grupo e estão fora da jogada. Como disse o secretário do Partido na HNA, Gu Gang: “devemos entender que uma reestruturação que preserve a marca da HNA, mantenha os empregos de 100 mil funcionários e facilite o renascimento da HNA são uma grande mudanças e trata-se de uma oportunidade dada pelo Partido Comunista, pelo país e pela sociedade.” O recado está dado. 

O bilionário Chen Feng e seu CEO Tang Xiandong devem ter refletido sobre isso enquanto passaram o feriado prolongado detidos pelas autoridades chinesas.

*Marco Fernandes é pesquisador do Instituto Tricontinental e militante da Assembléia Internacional dos Povos

Edição: Thales Schmidt

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